Passamos a vida nos havendo com sobras. Nossas sobras. Sobras de nós. Sobra-nós. Hoje somos o resto de ontem. Aquilo não consumido por este implacável Sempre do Agora. Osso sobrado das carnes dos segundos. Isto que deu ao ontem boa parte de si, e já não sabe o que fazer com resto. É o que somos. Nós em nossa mais absurda realidade.
Estarrecedor. Estarrecido, pergunto: O que sobra depois do ódio comido com fome? O que sobra depois de todas as hipocrisias mentidas para si mesmo? O que sobra para consciência depois dos crimes todos? O que sobra de todas as teimosias ao pé de portas fechadas por dentro? O que sobra depois de todas as desistências de planos supostos? O que sobra das fantasias ? O que sobra dos sucessos vencidos? Dos títulos pendurados em paredes de casas vazias? Dos inimigos derrotados com cinismo? O que sobra dos gozos da esperteza? O que sobra de crer com muita fé, para descrer com mais força? O que sobra dos moralismos das religiões não-Deus inventadas? O que sobra dos gritos, das discussões? O que sobra depois do bater de braços do afogado? O que sobra do amargo das poucas vitórias e do corriqueiro das derrotas; derrotas-gente-de-casa?
O que sobra de tentar, tentar e tentar? O sonho sonhado é um, posto em prática é já outro, e gozado é péssimo. O que sobra dele? Coisa deselegante e vil isto de colocar sonhos em prática…
O que sobra depois de todos os cansaços cansados, senão um cansaço metafísico. Um espaldar na cadeira da alma, e um suspirar de alívio de nada. Um estirar de músculos nas carnes do ser, e um dar de ombros às obrigações expectantes de nós, que as esquecemos.
O que sobra depois de tudo?
Tento provar, neste lugar, e desde este lugar, que sobra o inusitado. Sobra aquilo feito de linguagem, investido aqui de palavras: sonho íntegro em seu caráter de sonho, por ser contado, apenas; e nunca posto em prática.
Sobra o inesperado. Sobra o buscado e nunca encontrado, porque não se encontrava buscando. Compassivo expectador dessa busca, assistia-nos em nossa carreira, que era inútil, esperando uma fenda por onde mostrar o rosto, mas não dava. Não dávamos.
Eu, de mim, e por mim, estou convicto: o amor é o que sobra depois de tudo.
Quem nunca se perguntou como veio parar no lugar onde está? Dificilmente nossas escolhas obedecem a uma linearidade. Ou melhor, obedecem a uma linearidade apenas suposta por nós. Quando, então, nos deparamos com o inesperado, com o que não estava nos cálculos, aí vemos o quanto essa linearidade era suposta. Chegamos a um determinado ponto com a sensação de que fomos trazidos até ali por alguém distinto de nós. Algo como um mandado que se cumpre, mesmo sendo desconhecido mandante.
O fato é que chegamos e temos de lidar com a realidade disso.
Desamparo. Escuro e solidão de uma floresta. A neve e o frio dão o colorido da cena construída pelo texto: o desamparo da condição humana. O sem sentido de nossas escolhas que nos levam, muitas vezes, por caminhos enviesados e resultados sempre insatisfatórios, quando comparados aos nossos desejos.
Sentimo-nos, então, impelidos ao movimento, desde onde estamos, para encontrarmos alguma saída. Mesmo deparando-nos com a constatação angustiante de que, talvez, não exista um sentido predeterminado ser encontrado; mesmo deparando-nos com isso, precisamos nos movimentar. E mesmo que não pareça haver saída, é preciso se manter movimento.
Vozes dos pais surgindo (ou evocadas) em meio ao desamparo. Imperativos familiares brotando da floresta. Presença-ausência se insinuando na escuridão gelada. Perguntas sem resposta. Respostas sem perguntas. Desencontro e mal-entendido. Onde estão, quando chamo por eles? Aí está, mas não quando preciso. Quem bom que estão, mas para onde foram agora? Justo agora?
Relação que é, em si mesma, um desencontro. Voz dos pais como tentativa de saída desse sem sentido dos caminhos, como resposta ao desamparo, mas que falha.
Falha, porque o desamparo é nosso. Muito nosso.
A voz da brancura também ensaia respostas desde um lugar que é plácido, apenas metafisicamente. Plenitude branca, distante, em outro lugar. A brancura, no entanto, traz respostas vagas, que aparecem e somem em ritmo distinto ao aparecimento das perguntas.Ao fim, os pais também estão desamparados e já não têm respostas. Todos caminham de mãos dadas com alguém sem rosto, que parece saber algum caminho. No entanto, o desamparo também está ali, pois a criatura é sem rosto. Não ampara tanto assim. Não há saída, o desamparo está sempre ali. Até que todos imergem na brancura. E só eles sabem o que se esconde dentro desse vazio. A partir desse ponto, não há mais texto possível. Há só um nada que respira. Agora, o desamparo está com o leitor. Ele que se movimente
Cada um de nós possui uma marca. A marca da diferença. Diferença que nos faz outro. Diferença que nos torna outro perante o outro, e outro perante si mesmo.
Em algum lugar somos sempre estrangeiros. Há algo em nós que nos faz, também, estrangeiros a nós mesmos.
Sigmund Freud aborda a questão, em sua obra, ao tratar do infamiliar. Mas não é de Freud que trataremos. Nossa digressão é sobre a obra A Vergonha da escritora, Nobel de literatura, Annie Ernaux.
Ao nosso olhar, é o que há nessa obra: o infamiliar. A vergonha é o que aparece no texto como a marca da diferença. Que essa marca signifique objetivamente vergonha, não é o que está em questão. O que se coloca é a constatação da existência dessa marca.
A partir da descrição de situações concretas da vida cotidiana de uma família francesa, vão se definindo os traços dessa diferença. Descrições de ruas, da geografia das cidades, das vestimentas de seus habitantes, do gestual, dos hábitos, tudo desenha o contorno dessa marca que para Ernaux aparece como vergonha.
O texto é cru. Não há fluxo de consciência. Não há estruturação psicológica de enredo. Estão praticamente ausentes imersões em eventuais estados anímicos dos personagens, exceto em alguns recortes em que eles surgem na condição de simples enumeração de dados objetivos. Não há digressões metafísicas.
Nos pequenos trechos em que a narradora ensaia um tímido e breve mergulho psicológico, ela o faz quando fala de si e de sua condição. São como tentativas de epifania sobre o seu próprio passado, as quais apresentam-se como interpolações ao texto, entre parênteses, algo deslocadas, e sempre relutando em abandonar o caráter denotativo e enumerativo das palavras.
As impressões da autora sobre si, colocadas entre parêntesis, ficam como que ensaios de um giro psicológico que acaba por não se concretizar, devido ao apelo que a concretude das coisas e uma visão objetiva de mundo impõem ao seu olhar. Em dado momento ela mesma refere: “Nunca vou conhecer o encanto das metáforas, a alegria do estilo”.
O texto é cru. Creuza essa presente na primeira cena do livro, descrita em toda a sua inteireza e honestidade. Cena descrita uma só vez e que povoa cada página do texto fantasmagoricamente, como cena oculta, mas sempre presente no não dito de cada frase.
Crueza da urina limpa na camisola, cuja marca fica no tecido como sinal de origem para os que vêm de fora. Crueza na origem e no comportamento do pai e da mãe e no trabalho que é seu sustento.
Crueza que contorna essa marca da diferença que é a da narradora. Diferenças de origem familiar e poder econômico capitalizadas politicamente por determinados setores da organização social, usadas para colocar em seu devido lugar os que não são distintos pela marca. Marca vivida e relatada pela narradora como a marca da vergonha.
Que essa marca signifique objetivamente vergonha, não é o que está em questão. Para alguns a mesma marca é lida como desprezo. Para outros, como ódio, saudosismo, orgulho, pertencimento, ou o que seja. O importante é que o texto nos conta que para a narradora essa marca é lida como vergonha.
A vergonha vista já no espelho dos olhos do outro. “No fim das contas, já nem percebia sua presença, ela já estava em meu próprio corpo.”
Foto: Maurício da Rosa Ávila. Santiago/RS. Nov.2023
Se interessa a todos, A mim já não interessa. Se todos gostam, A mim repugna O fato de todos gostarem.
O normal é uma desgraça.
A mim interessa o que passou. O esquecido. Os cacos. O bagaço da vida.
A mim interessa a fachada velha Dessas casas antigas Sustentando, No canto esquecido de um bairro, Trepadeiras E flores insuspeitas Colhidas por ninguém.
Eu sou advogado.
Eu, engenheiro.
Eu sou mestre em economia.
Sou Doutor em filosofia.
Sou chato.
Sou muito rápido.
Eu sou eficiente.
Já eu sou intuitivo.
Eu sou competitivo.
Eu não.
Eu sou pai.
Eu não sou ninguém
Sou jardineiro.
Sou um homem de sucesso.
Sou empresário.
Sou elegante.
Sou uma boa pessoa.
Sou imperfeito.
Sou detalhista.
Sou um bom motorista.
Sou jogador de futebol.
Sou psicólogo.
Sou chapista.
Sou catador de lixo.
Sou morador de rua.
Sou investidor.
Sou sério.
Sou pleno.
Eu sou triste.
Sou depressivo.
Tenho TOC.
Tenho TDAH.
Sou juiz.
Sou presidiário.
Eu sou carcereiro.
Eu, policial.
Sou o filho de minha mãe.
O orgulho de papai.
Sou homem de família.
Sou pervertido.
Sou empregado doméstico.
Sou copeira.
Sou professora.
Sou criminoso.
Sou político.
Sou aposentado.
Eu não sou.
Eu sou produtivo.
Sou grato.
Sou feliz.
Sou operário.
Sou presidente.
Sou bonito.
Sou feio.
Sou magro.
Sou realizado.
E essa impostura que olha você aí, desde o espelho,
E o espia impertinente por trás de sua imagem?
Isso aí é o quê?
A tarde era clara. O vento era morno. Os cães brincavam na rua atrás das pombas. O mar estava calmo. A praia, deserta. A vida era farta. O planeta completava mais uma volta em torno de si com a resignada disciplina que há nas coisas da natureza. A despeito das guerras entres os homens, das bombas jogadas entre os cafés, a despeito da menina que, naquela tarde, perdera a mãe quando fugia de seu país, a despeito das ideologias embriagando cérebros perversos, apesar dos absurdos andarem pondo o surrealismo para fora dos quadros, apesar de tudo isso, a terra completava mais uma volta em torno de si.
No escritório, não havia janelas. Ilhas. As pessoas trabalhavam em ilhas. As pessoas moravam em ilhas. As pessoas eram ilhas. Havia ali uma soturna semelhança com as fileiras de lápides de um cemitério. Oito horas ininterruptas sem direito a plano de saúde.
Chovia lá fora uma chuva boa e ninguém ficava sabendo do seu cheiro. O frio apavorava os mendigos, mas ninguém sabia. O filho perdia seu primeiro dente na escola e o pai não via. A mãe não via. A professora via caso ouvisse a criança chamar entre os gritos e demandas das outras crianças no pátio.
Reuniões aconteciam e decisões eram tomadas enquanto filhos eram esquecidos na escola no fim do dia.
O escritório seguia a pleno vapor. Todos em frente às telas tomando cafés ruins sem açúcar, bocejando logo depois do almoço e torcendo para que o relógio andasse. Os mais transgressores tiravam um cochilo no banheiro sobre caixas de papelão desdobradas. Os mais obsessivos levantavam apenas duas vezes por dia: uma para ir ao banheiro e outra para pegar o café. Alguns duravam uma semana e eram demitidos: contaram uma anedota, riram alto, descontraíram um pouco. Enfim, essas atitudes colocavam em risco o foco da equipe. Por isso, gente desse perfil era posta na rua antes que todos se dessem conta de que eram infelizes. Outros iam embora porque não suportavam a loucura. No momento em que percebiam que teriam de estudar o organograma das inimizades para encontrar o seu espaço no meio das intrigas, pegavam suas coisas, viravam as costas e sumiam.
Todos eram sérios. Todos estavam alinhados. Os homens em boas camisas e bons ternos. As mulheres também. Havia um silêncio incômodo por entre a tagarelice dos teclados.
A liturgia só era quebrada nos dias em que havia reunião de metas, ocasião em que todos eram informados de que elas não foram alcançadas ou que, mesmo alcançadas, o lucro da empresa, infelizmente, não suportaria a bonificação. Todos, no entanto, ganhariam, como recompensa, uma semana de almoço gratuito no restaurante da esquina.
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Houve um tempo, no entanto, em que a empresa alcançou tremendo sucesso em seu nicho de atuação. As vendas bateram recorde durante todos os meses. Foi um ano ímpar. Naquele tempo, todos, absolutamente todos estavam motivados e trabalhavam além de seus limites. O comprometimento foi às alturas. Trabalhava-se até às dez horas da noite. Ninguém ia para casa antes das nove. Ninguém chegava depois das sete horas da manhã. O clima ficou mais leve entre os colegas. Todos pressentiam um futuro próspero trabalhando ali. O novato já se imaginava como gestor de equipe. O gestor, gerente de departamento. O gerente de departamento sonhava com o tempo em que seria promovido a gerente-geral e ganharia férias de bonificação em Cancún. O gerente-geral já sonhava com todo o poder que teria quando fosse convidado a compor o quadro societário. Os estagiários possuíam cartão de visitas.
Todos sonhavam. Finalmente o marasmo deixava o ambiente. O produto vendido possuía solidez no mercado. Credibilidade. A empresa conquistou o direito à patente da invenção por 20 anos, sendo a única produtora do insumo. Corria-se de lá para cá com relatórios urgentes, ofícios e memorandos de última hora.
– Mais um cliente! E todos paravam o que estavam fazendo, abraçavam-se e brindavam no pub após o expediente.
Animados pelos resultados, alguns começaram a gastar de maneira um tanto quanto imprudente. Adquiriram carros de luxo. Outros, a casa própria. Os mais ousados financiaram a tão sonhada lancha. Dizem que o CEO comprou um jatinho particular e contratou piloto exclusivo.
Abriu-se o capital. Investidores de renome apostaram na marca. Nenhuma notícia poderia estragar o bom clima despertado por aquele belo momento da empresa no mercado.
O filho de um dos altos executivos, dirigindo uma Ferrari bêbado, a duzentos quilômetros por hora, perdeu o controle e atropelou uma estudante que aguardava no ponto de ônibus. Isso, no entanto, era fofoca de corredor.
A alegria era imensa. A equipe estava motivada.
O filho de um colaborador do almoxarifado foi encontrado morto no banheiro de um bar e na certidão de óbito constou overdose provocada por uma droga cujo nome era ainda desconhecido.
Isso, porém, era boato. O negócio andava bem. Voava.
Um dos gerentes de recursos humanos parece ter sido encontrado morto no banheiro de casa, sobre uma pilha de papéis e comprimidos – os papéis eram demissões de diversos colaboradores ocorridas nos últimos cinco anos. “Ele nunca bateu muito bem da cabeça mesmo”, eram os comentários de corredor. Às vezes, sem motivo aparente, corria para o banheiro chorando alto. Noutros momentos, estava efusivo, sendo qualquer ocorrência de somenos importância motivo para um brinde de café. Isso não impedia que, alguns minutos depois, explodisse repentinamente em frente a todos espalhando reproches aleatórios a não se sabe quem.
Entregava resultados, isso é fato. Circunstâncias do destino. “Tem gente que não nasce bem da cabeça, coitado”.
As ações valorizavam-se a cada dia.
Aproximava-se o final do ano e a expectativa para os resultados crescia. Todos teciam teorias de como seria a distribuição da participação nos lucros. Faziam cálculos. Previam repercussões na remuneração. Um grupo de colaboradores contratou uma consultoria. Buscavam, em verdade, orientações sobre investimentos seguros ou com risco moderado, visando a futuras apostas no mercado de capitais. Muitos investiriam em imóveis.
A única tristeza da equipe digna de nota naquele ano foi um colega, colaborador da área de TI, que infartou em sua ilha numa tarde de sábado. Dizem que ele não cuidava bem da saúde. Uma hora aconteceria o pior. Foi um bom colega. Uma boa pessoa.
Houve uma ação entre amigos para a compra do caixão, da qual o gerente não quis participar. Foi sepultado em uma cova pública, pois a família não pode pagar pelo jazigo.
A empresa mandou uma coroa de flores. Para o cemitério errado.
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Chegado o último mês do ano, tudo eram expectativas. Sensação de dever cumprido. Sorrisos nos rostos. Olheiras apagadas pelas maquiagens. Lesões por esforço repetitivo tornando-se problemas crônicos. Nada incomodava. Enxaquecas diárias e gastrites causadas pelo uso indiscriminado de analgésicos: ninharias. Alguns divórcios pelo meio do caminho: coisas da vida. Dois adolescentes, filhos de dois sócios, promoveram uma festa regada a vodca cara, energético, whisky doze anos, cocaína e umas balas de nome esquisito. Uma menina entrou em coma. Dez meninos fizeram sexo com ela desacordada, chamaram a ambulância e fugiram. Pouca coisa abalava a felicidade que naquele momento invadia de insanidade as fibras mais íntimas de suas loucuras: a ambição fazia a boca deles salivar e seus olhos virarem bocas a devorar o mundo.
Última semana! Seria na sexta. A reunião estava marcada para às nove horas da manhã. Foi um ano espetacular! Impecável! Como foi recompensador vestir a camisa da empresa. Sentir-se parte de um todo. Trabalhar conjuntamente para um fim único! Como é estimulante e recompensador! Na quinta-feira o faxineiro fechou as salas às onze e meia da noite após o último apagar as luzes.
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Sexta-feira. Sete horas da manhã. Gilson, o gerente-geral, chegou primeiro. Falava com seu corretor ao telefone, prometendo informações mais precisas para dali a algumas horas. Abriu a porta de sua sala. Acendeu as luzes do setor. Pôs o café para passar.
Os primeiros funcionários chegaram rindo e conversando sobre amenidades. Aos poucos, todos chegavam. Conversas em voz alta e gargalhadas.
O burburinho, no entanto, foi aos poucos arrefecendo.
As vozes foram aos poucos se calando.
Um silêncio sepulcral, então, tomou conta das ilhas.
Ninguém estava entendendo.
Haroldo tomou coragem e perguntou:
– Dr. Gilson, o que houve com o nosso salário? Algum problema? Não recebemos o pagamento. Todos aqui já verificaram as contas, mas ninguém recebeu um centavo sequer.
O gerente-geral, um pouco atônito, em choque mesmo, respondeu com voz baixa e arrastada, sem tirar os olhos do monitor:
– Também não recebi… Vou ligar para o financeiro. Um minuto.
– Bom dia Gládis, pode nos dizer o que houve? A bonificação sabemos que só entrará amanhã, mas o salário já deveria estar depositado. Sabe informar o que houve?
– Sim, Dr. Gilson. Acabei de verificar que as contas da empresa estão todas bloqueadas por ordem judicial. O comando foi dado há dois dias e o oficial de justiça ligou logo cedo informando que virá aqui entregar a intimação.
Gilson derrubou o telefone lentamente no gancho, já adivinhando a notícia. Ele ouviu rumores. Até sabia que algumas coisas não estavam corretas. Coisas ilegais, mas coisas pequenas, nada de mais. A ponto, no entanto, de dar problema com a justiça, não imaginaria.
Saiu de sua sala e encostou-se na parede, pondo as mãos nos bolsos sem coragem de erguer o olhar:
– As contas da empresa estão bloqueadas pela justiça. Por isso, não houve depósito do pagamento.
Agitação violenta na sala. Alguns gritos. Socos nas mesas.
– Picaretas! Eu deveria ter desconfiado! Aqueles velhos são uns picaretas! Eu sabia! Somos um bando de trouxas! – brada um dos colaboradores.
Um deles interveio:
– Mas isso será resolvido, não é? Até o final da tarde teremos o salário? Tenho a reserva de vaga na escolinha de minhas pequenas para pagar e preciso do dinheiro. Preciso saber algo concreto!
Nisso, dois homens com semblante grave adentraram pela porta da sala, sob o olhar espantado dos colaboradores.
Um deles se dirigiu a Gilson.
– O senhor é o gerente-geral?
– Sim, sou eu.
– Meu nome é Carlos, oficial de justiça. Este senhor é advogado de um grupo de investidores da empresa. Ele veio acompanhar o cumprimento do mandado. O senhor precisa assinar aqui neste documento como representante da empresa.
– Não vou assinar! Nem sei do que se trata.
– Vou ler para o senhor. Mas já adianto, caso o senhor não assine, anotarei a sua recusa, pois possuo fé pública, e a empresa estará, mesmo assim, citada.
O oficial de justiça, então, prosseguiu explicando que os sócios majoritários da empresa eram acusados de lavagem de capitais. Muito dinheiro foi desviado para contas no exterior. Credores ficaram sem receber. A empresa estava na iminência de ter sua falência decretada. Havia elementos que indicavam má administração, inclusive fraude ao mercado de capitais. O advogado que ali estava obteve para seu cliente o direito ao bloqueio das contas e arrestos de bens da empresa para a garantia de seu crédito
Gilson ouviu em silêncio.
Não esboçou reação.
Apenas assinou os documentos e os devolveu ao oficial de justiça que saiu pela porta acompanhado do advogado.
Todos se entreolharam.
Foi um caso rumoroso. Escândalo na imprensa. Expedição de mandados de busca. Decretação de medidas constritivas diversas. Notas das defesas dos sócios eram publicadas nos jornais de grande circulação. Eles partiram em fuga para o exterior. Um para cada canto do mundo. O dinheiro sumiu.
Naquele mesmo dia, após um instante trágico, alguns juntaram seus pertences pessoais e saíram pela porta carregando caixas. Outros ficaram em pé diante da parede envidraçada olhando os escritórios dos prédios vizinhos onde se trabalhava freneticamente. Olhavam o trânsito fluindo lentamente entre os engarrafamentos das sinaleiras.
Dois saíram pela porta correndo e chorando. Três ou quatro batiam a cabeça contra o tampo da mesa repetidamente.
– Filhas da puta! – murmurou um.
Um deles teve um acesso de riso e vomitou no carpete bege.
Uma senhora foi acometida de uma crise de ansiedade e teve de ser deitada no chão para conseguir voltar a respirar normalmente.
Mas o mais estranho, o mais bizarro, o mais fantástico foram os dez funcionários que, após o oficial de justiça sair pela porta, ajeitaram-se na cadeira, limparam a sujeira dos óculos, suspiraram pragmáticos e seguiram trabalhando normalmente.
O porteiro comentou que o último deles a sair, naquele dia, desligou o computador às dez horas da noite e despediu-se protocolarmente ao cruzar pela portaria:
– Boa noite, Borges! Bom descanso! Até amanhã.
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A despeito das guerras entres os homens, das bombas jogadas entre os cafés, a despeito da menina que, naquela tarde, perdera a mãe quando fugia de seu país, a despeito das ideologias embriagando cérebros perversos, apesar dos absurdos andarem pondo o surrealismo para fora dos quadros, apesar de tudo isso, a terra completava mais uma volta em torno de si.
Via somente meus pés andando e distribuindo passos pela trilha. Parecia ser uma trilha em uma campina ou no sopé de um monte, não recordo bem. Eu era algo sobre esses pés. Eu era o que via esses pés andarem e era carregado por eles. O vento soprava da cor do sol leve. As folhas das árvores dançavam com as nuvens num chão que era céu. Ao lado de meus pés caminhava minha gata que atendia pelo nome de Madalena. Ladeava o caminho de relva uma mata de onde nascia cantiga de rio. Meu amor estava comigo. Ela passeava despreocupada observando as flores desconhecidas, as borboletas e as aves que cruzavam em seus bandos rumo ao horizonte. Em largos suspiros, flutuavamos na ausência do passado. Não que estivéssemos redimidos. Nada havia de que se redimir – a culpa não era uma palavra naquele lugar. O silêncio era onipresente. Silêncio tecendo de veludo o mistério. Silêncio sem gente que me trouxe uma paz parecida com Deus. Caminhávamos. Somente caminhávamos entre céu, árvores, chão, agreste cheiro de todas as coisas que, ao fim, acaba um só: carqueja. Aquele gosto de vida nas narinas tornando o demais dispensável. Caminhávamos. Chegar não nos interessava. Palavras mesmo não trocamos entre nós. Nem sei se naquele lugar havia palavras. Só cheiro, cores, cores de uma luz branda que não se encontra em outro lugar de tão intensa brandura. Naquele lugar, não era preciso falar. A palavra logo sufocaria em suas vasilhas a imensidão daquele instante – talvez por isso os anjos não falam. Li em algum lugar que eles não falam. Enfim, compreendo. Minha gata roçou minhas pernas e logo foi ao encontro de meu amor. Deitaram-se na relva. Ficaram a olhar o céu e a brincar com nuvens. Um gafanhoto apareceu de repente na grama. Madalena rastejou até ele lentamente como um felino em meio à savana e pulou sedenta sobre a suposta caça que escapou para um arbusto ali perto. Madalena seguiu seu intento obstinada e saltou novamente sobre a presa que então fugiu em minha direção. Com o reflexo e a rapidez dos gatos, Madalena avançou violentamente saltando sobre mim para apanhar seu gafanhoto. Eu me desequilibrei e caí. Acordei. No chão do quarto, um pouco assustado, demorei a perceber que caí. Vi as costas nuas e alvas de meu amor respirando leve, dormindo em seu lado da cama, talvez ainda passeando naquela relva. Minha gata, também sobre a cama, rolava com um brinquedo que meus filhos esqueceram por ali na noite anterior. Segurava-o com suas patas dianteiras atirando-o para cima para deixá-lo novamente cair sob seu jugo. Pobrezinha, tinha dificuldades para ficar em pé depois que uma das patas traseiras foi totalmente amputada para retirada de um tumor repentino. Até que se saía bem com as três que lhe restaram. De tanto saltar e se debater acabou por me derrubar da cama provavelmente. Olhei rápido para o relógio na cabeceira e vi que era tarde. Já estava atrasado para não ir. O real me esperava sem relva. E à Madalena, sem uma pata.
* O texto está escrito em bloco por opção de estilo.